Às vésperas da cerimônia do Oscar, “O Agente Secreto”, thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, tem colocado Pernambuco no centro das atenções da mídia internacional. Indicado em quatro categorias da premiação, entre elas a de Melhor Filme, o longa já soma 2,35 milhões de espectadores no Brasil – mas seus efeitos se estendem para além das salas de cinema. No Recife, onde parte da história foi filmada, pequenos negócios relatam aumento no movimento e novas oportunidades impulsionadas pela repercussão da produção.
Um dos exemplos desse impacto pode ser visto na La Ursa Tours, empresa de turismo criada em 2017 que aposta em roteiros de mobilidade ativa, com passeios a pé ou de bicicleta pela cidade. A iniciativa ganhou um novo impulso após a estreia do filme, que inspirou a criação de uma caminhada pelas locações utilizadas no longa.
A ideia surgiu após a sessão de estreia da produção em Recife, em novembro do ano passado. Ao reconhecer diversos cenários da cidade durante a exibição, o fundador da agência, Roderick Jordão, percebeu o potencial de transformar os espaços em um roteiro turístico. “Enquanto assistíamos ao filme, já era fácil identificar várias locações. Quando saímos da sessão, percebemos que já tínhamos praticamente um roteiro pronto na cabeça”, conta.
O roteiro, com cerca de três horas de duração, percorre cenários do filme por pontos históricos do Centro do Recife, como o Parque Treze de Maio, o Ginásio Pernambucano, o Chá-Mate Brasília e o Cinema São Luiz. Desde então, o passeio passou a ser realizado aos sábados e rapidamente ganhou público. Inicialmente com 20 vagas, a caminhada foi ampliada para 30 participantes por edição para atender à demanda. Segundo Roderick, o sucesso do roteiro também impactou outras atividades da empresa, que registraram aumento de cerca de 20% na procura.

O empresário também ressalta a importância da repercussão internacional do filme, que em 11 de janeiro foi eleito Melhor Filme em Língua Não Inglesa no Golden Globe Awards, uma das premiações mais prestigiadas da indústria cinematográfica.
“No começo do passeio, cerca de 90% das pessoas que faziam a caminhada eram recifenses. Depois do Globo de Ouro, começamos a receber muito mais visitantes de fora. Hoje o público está mais equilibrado: cerca de 50% de visitantes e 50% de moradores do Recife”
Roderick Jordão, empresário à frente da La Ursa Tours
Um dos pontos visitados no roteiro das locações de “O Agente Secreto”, o Chá-Mate Brasília também passou a sentir os efeitos da repercussão do filme. Fundada em 1984 por Manoel Pinheiro, a lanchonete tradicional do centro do Recife hoje é administrada pelos filhos, Paulo Pinheiro e José Suevânio. O estabelecimento ficou conhecido por oferecer alimentação simples e acessível para quem circula pela região, reunindo um público diverso ao longo dos anos.
Apesar da tradição, o negócio vinha enfrentando dificuldades nos últimos anos, com redução no movimento desde 2013. A situação começou a mudar quando o local foi escolhido como uma das locações do filme, a partir da indicação de uma das produtoras da equipe, cliente antiga da lanchonete.
O estabelecimento aparece em uma sequência de perseguição na reta final do filme. Para Paulo, foi um privilégio acompanhar de perto o processo de gravação. “Foi uma experiência intensa e muito interessante. A equipe passou várias horas gravando para garantir que cada detalhe da cena saísse exatamente como planejado”, relata.
Ainda segundo ele, o impacto no movimento também começou a ser percebido após a projeção internacional da produção.
“Após a indicação ao Globo de Ouro percebemos uma mudança positiva, com aumento no fluxo de clientes. Estimamos um crescimento de cerca de 30% no movimento, especialmente aos sábados, quando começaram a surgir passeios que visitam as locações do filme no centro”
Paulo Pinheiro, empresário
O aumento no número de visitantes também se refletiu nas vendas, que cresceram entre 25% e 30%. Além do público habitual, o local passou a receber turistas e curiosos interessados em conhecer de perto um dos cenários do filme. “Recebemos visitantes motivados pela curiosidade. Chegaram até turistas argentinos que pesquisaram as locações do filme e vieram conhecer a lanchonete”, conta. O interesse despertado pelo filme ainda inspirou uma novidade no cardápio: um sabor especial de mate com leite, que carrega o nome do filme.

O movimento também chegou ao comércio por meio de produtos inspirados no universo da produção. Na Pátio Tecidos, loja inaugurada em 2024 e especializada em tecidos e estampas com referências à cultura pernambucana, o lançamento de “O Agente Secreto” ajudou a impulsionar uma nova parceria e a atrair clientes interessados em produtos ligados ao imaginário da cidade.
A marca já trabalhava com estampas inspiradas em pontos conhecidos do Recife, como as pontes da cidade, a Rua da Aurora, o Marco Zero e a Rua do Bom Jesus. Com o destaque do filme, surgiu a ideia de desenvolver produtos relacionados a esse universo urbano. “Quando saiu o filme, que tem muitas cenas no centro do Recife, a gente não pensou duas vezes: era a cara da Pátio”, destaca Lucas Mota, dono da empresa.
A parceria foi firmada com a tradicional troça carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos e resultou na criação de estampas e na venda de camisas do grupo. A loja também passou a comercializar a camisa amarela retrô da Pitombeira, que virou febre após ser usada por Wagner Moura no filme. “Entramos em contato com a Pitombeira para criar estampas e vender as camisas. Fizemos um acordo de royalties e a receptividade deles foi imediata. Até o Carnaval foi uma loucura, tinha filas nas lojas todos os dias”, relata.
Embora a venda das camisas beneficiasse diretamente a troça, a ação também impulsionou o movimento nas lojas da Pátio Tecidos. Segundo Lucas, muitos clientes foram em busca da peça, mas acabaram conhecendo outros produtos da marca.
“Muita gente foi até a loja atrás da camisa, mas acabou comprando outros itens também. Estimamos um aumento de cerca de 20% no movimento da unidade do shopping e de 15% na loja do centro por causa da ação”
Lucas Mota, empresário da Pátio Tecidos
Para além dos casos individuais, o sucesso de “O Agente Secreto” também evidencia o potencial do audiovisual para movimentar toda a economia criativa local. Como mostram os exemplos, produções culturais podem gerar novas oportunidades de negócio ao inspirar produtos, serviços e experiências ligadas ao universo das obras. “O cinema tem essa capacidade de ultrapassar as telas e estimular novas ideias. A partir de um filme, podem surgir roteiros turísticos, produtos temáticos, eventos e outras experiências que movimentam diferentes setores da economia”, explica.
“Temos em mãos um produto cultural de altíssima qualidade, com enorme potencial de gerar novos desdobramentos e movimentar diferentes setores da economia pernambucana. O cinema é criatividade, identidade e bons negócios”
Eduardo Maciel, especialista em Economia Criativa do Sebrae/PE
Entre os empreendedores que acompanham esse movimento de perto, o impacto também tem um significado especial. “Quando um filme feito em Pernambuco ganha destaque, isso fomenta o comércio e fortalece o orgulho cultural. Para quem trabalha com produtos ligados à identidade do estado, isso é muito importante”, enfatiza Lucas Mota, da Pátio Tecidos.
Para Paulo Pinheiro, do Chá-Mate Brasília, a percepção é semelhante e reforça a importância para quem vive e trabalha no centro da cidade. “Quando espaços tradicionais aparecem em produções culturais desse porte, eles mostram que o coração do centro continua pulsando”, encerra.
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