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Grandes empresas e pequenos negócios ampliam conexões para transformar cadeias produtivas

Segundo dia do Fórum Encadear reúne experiências de diferentes setores e mostra como grandes investimentos podem abrir espaço para pequenos negócios e ampliar seus efeitos nas regiões
Por Nara Neri
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Experiências de grandes empresas e de pequenos negócios que já participam de suas cadeias marcaram o segundo dia do Fórum Encadear, realizado pelo Sebrae nesta quinta-feira (15). Casos da Suzano e da Dengo Chocolates, além de iniciativas construídas em diferentes estados, mostraram caminhos adotados para aproximar fornecedores locais dos grandes investimentos e fazer com que uma parcela maior da renda gerada circule nas regiões.

A troca de experiências é uma das propostas do Encadear, iniciativa nacional do Sebrae criada para aproximar médias e grandes empresas dos pequenos negócios e fortalecer sua participação nas cadeias de valor.

Para Bruno Quick, diretor técnico do Sebrae Nacional, que acompanhou a programação nesta quinta-feira, a experiência acumulada pelas empresas ajuda a entender como parceiras nas cadeias de valor podem produzir efeitos diferentes de acordo com o setor e com a economia de cada região.

“Quando uma grande empresa chega a uma região, existe uma cadeia de oportunidades que pode ser desenvolvida a partir daquele investimento. O desafio é conhecer a dinâmica e as vocações de territórios e setores, quais negócios podem participar e o que precisa ser desenvolvido para que esse movimento seja impulsionado”, afirma Quick.

Produção de fibra de celulose pode beneficiar pequenos negócios em Mato Grosso do Sul | Foto: Divulgação

O efeito da celulose para além da fábrica

Em Mato Grosso do Sul, essa discussão pode ser observada na expansão da indústria de celulose. O estado, historicamente associado à pecuária e à soja, passou a receber investimentos bilionários do setor, alguns deles em municípios bem pequenos. O impacto não se limita aos fornecedores diretamente ligados à produção.

Na fase de construção de uma fábrica, milhares de trabalhadores podem chegar a uma cidade em pouco tempo e, quando a operação começa, parte deles vai embora, enquanto outros profissionais e suas famílias permanecem ou chegam à região. Muda o número de moradores, muda o consumo e muda também o tipo de serviço demandado.

É nesse movimento que Sandra Amarilha, diretora técnica do Sebrae MS, enxerga espaço para os pequenos negócios. A atuação começa por entender o que aquela região já sabe fazer e como essas atividades podem responder à nova dinâmica econômica.

Temos que nos apaixonar pelo território, pela necessidade do território e colocar o que temos de melhor.

Sandra Amarilha, diretora técnica do Sebrae MS

Isso significa que o efeito de uma indústria não precisa aparecer apenas entre seus fornecedores diretos. Em determinados municípios, a oportunidade pode estar no comércio ou nos serviços. Em outros, pode surgir da valorização de atividades que já existiam antes da chegada do investimento. Sandra cita o trabalho com artesãos como exemplo de uma atuação que pode passar pelo design e pela agregação de valor, em lugar de tentar enquadrar todos os pequenos negócios na cadeia industrial.

O gerente executivo de Relações Corporativas da Suzano, André Brito, disse que a companhia trabalha com um horizonte de longo prazo para as regiões onde está presente. Entre as metas está contribuir para retirar 200 mil pessoas da linha da pobreza, compromisso que leva a empresa a olhar para os efeitos de sua presença para além da operação industrial.

“A gente tem que pensar fortemente em como transformar as realidades”, afirmou. Segundo ele, isso exige preparar os negócios locais para aproveitar as oportunidades abertas pelos investimentos e construir condições para que continuem crescendo mesmo sem depender exclusivamente da Suzano.

O executivo citou o trabalho com vendedores de farinha da Bahia que passaram por um processo de profissionalização e com uma cooperativa de comunidade quilombola preparada para fornecer para a companhia. “Essa preparação foi muito importante. Essas pessoas deixaram de ser vendedores de farinha na feira para se tornarem fornecedores do produto”, disse.

Para Brito, o resultado mais relevante aparece quando esse desenvolvimento ganha continuidade. “O que eu mais gosto de ver são ideias estruturantes, que vão transformar e fazer a diferença.”

Foto: Divulgação

Mais da metade relata aumento de faturamento

Os resultados apresentados pelo Sebrae dão uma dimensão mais ampla do que pode acontecer quando pequenos negócios conseguem avançar nessas cadeias. Pesquisa realizada com clientes atendidos pelos projetos de Conexões Corporativas indica que 53% relatam aumento de faturamento. Entre as empresas que cresceram, a alta média foi de 38%.

“Isso mostra a força e o poder de inserir pequenos negócios ou de melhorar a performance de empresas que já estão inseridas nas cadeias de médias e grandes corporações”, afirma Carlos Eduardo Santiago, gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae.

Santiago diz que parte do trabalho está em acompanhar os movimentos das grandes empresas para identificar onde podem surgir novas oportunidades. Mudanças geopolíticas, por exemplo, podem levar companhias a reorganizar fornecedores ou deslocar etapas da produção. Um problema ainda sem solução dentro de uma grande empresa também pode abrir espaço para um pequeno negócio ou uma startup. “A gente tenta monitorar e fomentar oportunidades nesse sentido”, diz.

Membros da Associação Integra Costa Leste | Foto; Divulgação

A indústria chega à educação

O próprio caso da celulose mostra até onde esses efeitos podem chegar. Em Mato Grosso do Sul, uma das experiências apresentadas no fórum está na educação. A Associação Integra Costa Leste reúne doze municípios que passaram a compartilhar experiências e construir uma agenda regional para melhorar a aprendizagem. A articulação permite que problemas comuns deixem de ser tratados isoladamente por cada secretaria de Educação.

Queremos aumentar o Ideb, mas o principal objetivo é a aprendizagem das crianças, de forma participativa.

Regina Souza, diretora do Eixo de Educação e Aprendizagem da Associação Integra Costa Leste

Segundo ela, resultados educacionais levam tempo para aparecer, mas os municípios já começam a perceber mudanças produzidas pelo trabalho conjunto. “Sozinhos não somos ninguém!”, enfatiza.

Na Bahia, Cleide Ferreira, presidente da Associação de Desenvolvimento Sul da Bahia, relatou que um estudo desenvolvido durante um ano e meio em 13 municípios ajudou a identificar potencialidades que nem sempre eram conhecidas pelos próprios atores locais. Um dos desafios encontrados foi a formação profissional. Há regiões que recebem grandes investimentos, mas ainda precisam trazer trabalhadores de fora porque não encontram localmente pessoas com a qualificação necessária.

Chocolates da Dengo buscam fortalecer a sustentabilidade da cadeia produtiva | Foto: Divulgação

No chocolate, só 3% ficam na origem

A Dengo Chocolates levou ao fórum outra maneira de olhar para a relação entre uma grande empresa e sua cadeia. O CEO da companhia, Estevan Sartoreli, apresentou dados segundo os quais, no modelo convencional da cadeia do chocolate, apenas 3% do valor ficam com o produtor de cacau. Varejistas e supermercados concentram uma parcela de 43%.

Para o executivo, “não existe chocolate sustentável sem cacau sustentável e não existe cacau sustentável sem renda digna”. Ele conta que a empresa compra diretamente dos produtores e paga também por atributos de qualidade do cacau. O relacionamento começa antes da venda, com assistência técnica, e inclui o acompanhamento da renda dos fornecedores.

De acordo com ele, todo o cacau adquirido pela Dengo vem de sistemas agroflorestais, principalmente da cabruca, em que o cultivo ocorre sob árvores da Mata Atlântica. O modelo permite associar a produção do cacau à conservação da floresta e criar novas possibilidades de renda para os produtores.

Foto: Divulgação

Juntos pela Indústria

O Juntos pela Indústria, parceria entre o Sebrae e o Sistema Indústria (CNI, Federações das Indústrias, SESI, SENAI e IEL), também esteve no Encadear. A iniciativa funciona como um selo para identificar e aproximar ações das instituições voltadas ao desenvolvimento da indústria, conectando as demandas das empresas às soluções disponíveis em cada estado.

A participação no fórum reforçou a ligação com as cadeias produtivas. A proposta é fazer com que as necessidades identificadas pela indústria orientem ações de apoio aos pequenos negócios, ampliando a participação dessas empresas nas oportunidades geradas pelo setor. Mais de 160 pessoas já estão envolvidas nas articulações estaduais da iniciativa.

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