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Geopolítica redesenha cadeias de fornecedores e amplia pressão sobre empresas

Oliver Stuenkel diz no Fórum Encadear que instabilidade global passou a fazer parte do planejamento empresarial
Por Nara Neri
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A competição entre grandes potências, as guerras e a busca por cadeias de suprimentos menos vulneráveis encerraram um período excepcional de estabilidade para as empresas e inauguraram uma fase em que o risco geopolítico terá de entrar de forma permanente nas decisões de investimento, produção e escolha de fornecedores. A avaliação foi feita pelo professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel na abertura do Fórum Encadear, promovido pelo Sebrae nesta quarta-feira (14), em São Paulo.

Em uma análise das mudanças na ordem internacional, ele afirmou que a competição voltou a ocupar o espaço que, durante parte das últimas décadas, foi marcado pela cooperação entre as grandes potências. “Turbulência virou regra e precisa ser incorporada no planejamento”, disse.

Segundo Stuenkel, o período de hegemonia de uma única potência após o fim da Guerra Fria foi uma exceção histórica. A ascensão da China e a disputa crescente com os Estados Unidos abriram uma fase de maior competição, em que decisões econômicas passaram a se misturar novamente a preocupações de segurança nacional.

Estamos entrando em um mundo multipolar. Esse mundo em que havia uma potência dominante acabou e não volta mais – pelo menos em cem anos. As empresas precisam entender que a instabilidade não é uma fase passageira, mas uma característica do ambiente em que vão operar.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais

A mudança já aparece na reorganização das cadeias produtivas. Stuenkel chamou a atenção para a volta das políticas de reindustrialização e para o peso crescente da segurança na escolha de parceiros comerciais. A eficiência continua relevante, mas não é o único critério.

“Ninguém pode depender de um único fornecedor ou de um único mercado. É preciso identificar quais são os parceiros seguros e confiáveis e pensar desde já qual é o plano B se houver uma ruptura.”

Para Stuenkel, isso não significa que o comércio internacional esteja recuando de maneira generalizada. Empresas continuam negociando globalmente, mas buscam reduzir dependências e ampliar alternativas. Nesse rearranjo, o Brasil pode ganhar espaço por manter relações com diferentes polos e não estar diretamente envolvido nos principais conflitos internacionais.

Foto: Tulio Vidal

“O Brasil pode se apresentar como um parceiro ideal para diversificação. É um país que não é inimigo de ninguém, tem boas relações com os vizinhos e consegue conversar com diferentes atores. Isso é muito raro! Quanto mais parceiros tiver, melhor”, pontuou.

A vantagem não elimina a vulnerabilidade a choques externos. Stuenkel citou a crise no Estreito de Ormuz para mostrar como conflitos distantes podem atingir o agronegócio brasileiro, altamente dependente da importação de fertilizantes. Para ele, além de diversificar fornecedores, as empresas terão de acompanhar com mais atenção a origem de seus insumos e parceiros, diante do crescente escrutínio sobre cadeias ligadas a Estados Unidos e China.

Mudança já chegou às empresas

Para Carlos Eduardo Santiago, gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae, as mudanças globais podem criar novas oportunidades. “Às vezes, um fornecedor vai ter uma migração de planta produtiva por um processo afetado por uma guerra ou por uma situação de escassez. Isso traz desafios, mas também pode trazer oportunidades, e a gente tenta monitorar e fomentar essas oportunidades.”

Essa reorganização das cadeias, apontada por Stuenkel e acompanhada de perto pelo Sebrae, já se reflete nas decisões das grandes empresas. Executivos de Embraer, Danone, L’Oréal e Globo mostraram, no primeiro painel do Encadear, como as mudanças globais estão transformando a relação com os fornecedores. Qualidade, preço e capacidade de entrega permanecem centrais, mas agora convivem com inovação, sustentabilidade, diversidade, certificações e capacidade de acompanhar mudanças tecnológicas.

Leonardo Guernica destacou a necessidade de ampliar a capacidade da cadeia produtiva | Foto: Tulio Vidal

A Embraer reúne cerca de 1.400 fornecedores diretamente ligados aos produtos e mais de 5.000 considerando toda a companhia. Para a fabricante brasileira de aviões, o desafio é fazer com que empresas de diferentes portes acompanhem os padrões de qualidade, tecnologia e certificação exigidos pela indústria aeronáutica.

De acordo com Leonardo Garnica, líder de inovação corporativa da Embraer, “a cadeia precisa andar na mesma velocidade da produção”. A companhia atua tanto na qualificação das empresas quanto na conexão com mecanismos de financiamento e parceiros como o Sebrae para ampliar a capacidade produtiva e tecnológica da cadeia.

“A gente trabalha para capacitar os fornecedores, trazer digitalização, tecnologia e acesso a financiamento, porque não adianta uma empresa avançar e o restante da cadeia não conseguir acompanhar. A gente cresce junto”, afirmou.

Taisa Costa, head de Sustentabilidade da Danone | Foto: Tulio Vidal

Crescer juntos

Na Danone, a relação com pequenos produtores de leite inclui assistência técnica, capacitação e agricultura regenerativa. Segundo a head de Sustentabilidade, Taisa Costa, a multinacional francesa reduziu em 50% as emissões de CO₂ e em 43% as de metano nas iniciativas desenvolvidas com a cadeia. Além disso, 60% do leite adquirido já está associado a impactos positivos nas dimensões social, ambiental e econômica.

“Quando a gente fala de desenvolver a cadeia, está falando de fazer o produtor prosperar junto com a empresa. É compartilhar conhecimento e trabalhar para que o resultado econômico venha acompanhado de impacto social e ambiental positivo”, pontua.

Os compromissos socioambientais também passaram a orientar a relação com os fornecedores na L’Oréal. A gigante de cosméticos e produtos de beleza trabalha com sourcing sustentável, diversidade de fornecedores e metas relacionadas a clima, natureza e economia circular.

Segundo Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da empresa no Brasil, não é possível pensar o resultado da companhia separado do impacto da cadeia. “A agenda financeira e a agenda extra-financeira precisam caminhar juntas. Isso significa trabalhar com os fornecedores para que eles também consigam avançar”.

Mauricio Gonzalez, diretor do Centro de Serviços Compartilhados da Globo | Foto: Tulio Vidal

Reconhecer as diferenças

Na Globo, Mauricio Gonzalez, diretor do Centro de Serviços Compartilhados, falou do desafio de levar essas exigências a uma rede de cerca de 40 mil fornecedores, de grandes companhias a pequenos negócios. A estratégia passa por reconhecer diferentes níveis de maturidade e criar caminhos de capacitação.

“Não dá para olhar uma pequena empresa e uma grande companhia da mesma maneira. Os tempos são diferentes, as estruturas são diferentes, e o nosso papel também é ajudar esse fornecedor a entender o que precisa fazer para estar preparado”, afirmou. Gonzalez conta que em uma iniciativa realizada com o Sebrae, 30 pequenas empresas participaram de uma imersão em ESG e todas chegaram à certificação.

A experiência de Franco Machado, CEO da Mogai, mostrou o outro lado dessa relação. A empresa começou fornecendo soluções para a Vale e hoje atende mais de 40 grandes companhias. Tecnologias desenvolvidas inicialmente para a mineração passaram a ser aplicadas em outros setores. Na Embraer, por exemplo, uma solução da empresa é utilizada em aeronaves autônomas, enquanto na Cargill, uma tecnologia criada para medir minério de ferro foi adaptada para a medição de grãos de soja.

Machado destacou que entrar nas cadeias de grandes empresas exige capacidade técnica, acesso a financiamento e preparação para atender processos e exigências. A qualificação do Sebrae, segundo ele, ajudou nesse percurso.

De acordo com o gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae, Cadu Santiago, as pequenas e médias empresas devem atentar-se para as exigências que chegam com a abertura de mercados. “Se uma pequena empresa não se adaptar a determinado tipo de certificação, ela pode estar fora do jogo nesse mercado corporativo. O nosso papel é preparar as empresas para que elas consigam aproveitar essas oportunidades”.

O Fórum Encadear reúne grandes empresas e pequenos negócios para discutir as transformações nas cadeias de valor. A programação do primeiro dia terminou com uma apresentação do violonista Yamandu Costa. Nesta quinta-feira (15), o evento continua com debates sobre inovação, bioeconomia, novas tecnologias e mercados.

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